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Entrevista com a Sra. Aparna Mehrotra

Oficial Responsável pela Secção de Coordenação e Ponto Focal para as Mulheres no Sistema das Nações Unidas, ONU Mulheres, Nova Iorque

Pode fazer uma breve descrição do papel da sua Secção de Coordenação? 

A ONU Mulheres foi mandatada para liderar, promover e coordenar a responsabilidade no trabalho realizado pelo Sistema das Nações Unidas em matéria de igualdade de género e empoderamento das mulheres. Isto orienta o trabalho da Secção de Coordenação. Trabalhamos para introduzir maior coerência no trabalho do sistema das Nações Unidas em matéria de igualdade de género e empoderamento das mulheres. A coerência torna o nosso sistema mais forte e o trabalho que fazemos mais eficaz.

 

De que forma a entidade ONU Mulheres, criada em 2010, tem sido capaz de influenciar a igualdade de género no seio das Nações Unidas (melhor integração das questões de género, a nível interno, na elaboração de programas através do trabalho com intervenientes, beneficiários, etc.)

Em primeiro lugar, a criação da ONU Mulheres incrementou o espaço que as questões de género ocupam no sistema das Nações Unidas. Isto é muito importante. Numa estrutura hierárquica, a ocupação dos espaços é determinada em grande medida pelo nível da sua liderança. A ONU Mulheres é chefiada por um Subsecretário-Geral, cujo nível atribui à ONU Mulheres uma voz independente e de autoridade. Estamos agora em locais e espaços onde não estávamos antes. Isto fortalece as nossas vozes e as vozes daqueles que não a têm, e dá mais significado e dedicação à causa – tornar a igualdade de género e o empoderamento de mulheres e meninas uma realidade.

A ONU Mulheres continua a apoiar a integração das questões de género no sistema das Nações Unidas. Contribuímos para o desenvolvimento de capacidades com a criação de um módulo eletrónico introdutório sobre igualdade de género, o “I Know Gender”, e damos orientação em matéria de integração das questões de género na elaboração de programas de desenvolvimento. A ONU Mulheres apoiou e impulsionou 75 por cento das agências das Nações Unidas no desenvolvimento e promulgação de políticas de género – um aumento de mais de 50 pontos percentuais em cerca de três anos.

A nível nacional, a ONU Mulheres também apoia a integração das questões de género nos Quadros de Assistência das Nações Unidas para o Desenvolvimento (UNDAF) [United Nations Development Assistance Framework]. Também neste caso, impulsionámos a elaboração de mais UNDAF – talvez tenhamos mesmo duplicado o seu número – desde a criação da ONU Mulheres em 2010.

Por último, não podemos esquecer-nos de que a mudança positiva requer um envolvimento dos homens e dos meninos. Eles devem tornar-se parceiros para a igualdade de género. A ONU Mulheres apoia o envolvimento de homens e meninos em todos os contextos, incluindo no sistema das Nações Unidas através da sua campanha HeforShe, lançada pelo Secretário-Geral.

 

A sua Secção implementa o Plano de Ação do Sistema das Nações Unidas para a igualdade de género e o empoderamento das mulheres desde 2010. Quais são os resultados e que desafios persistem?

O Plano de Ação do Sistema das Nações Unidas para a igualdade de género e o empoderamento das mulheres, geralmente conhecido por UN-SWAP [UN System-Wide Action Plan], criou eficazmente um quadro harmonizado e unificado que permite medir e impulsionar o progresso alcançado no trabalho das agências das Nações Unidas em matéria de igualdade de género. Estabelece normas comuns e bem definidas que todas as agências devem cumprir e almejar. No fundo, não só indica anualmente em que ponto a agência se encontra como também até onde esta pode chegar. Faz a monitorização de 15 indicadores agrupados em seis áreas funcionais – as quais, em conjunto, abrangem essencialmente todas as principais funções de qualquer instituição.

O UN-SWAP permite ao sistema funcionar em consonância. Se pensarmos nele como um comboio, as diferentes agências do sistema das Nações Unidas são como as suas diferentes carruagens: elas podem estar em sítios diferentes ao longo da mesma linha, mas ainda assim seguem nos mesmos carris, deslocam-se na mesma direção e com o mesmo desejo de chegar ao mesmo destino – que no nosso caso é, claro, a igualdade de género e o empoderamento de mulheres e meninas.

Atualmente, quais são as questões mais críticas que, em sua opinião, devem ser abordadas para alcançar a igualdade de género e o empoderamento das mulheres?

Tendo em conta que a igualdade de género e o empoderamento das mulheres são totalmente multifacetados, é muito difícil dizer quais são as questões mais críticas. Todos os aspetos são importantes. No entanto, se tivesse que escolher, diria que a eliminação das violações dos direitos humanos contra as mulheres, e em especial a violência contra as mulheres – que é a violação mais universal e generalizada dos direitos humanos em todo o lado – deve ser a primeira prioridade. Temos que eliminar este flagelo, ele destrói a dignidade humana e impede a concretização do pleno potencial de mulheres e meninas. Para serem bem-sucedidas, todas as sociedades devem manter a sua dignidade e atingir o seu pleno potencial.

Assim que recuperamos e preservamos este aspeto tão fundamental da sua pessoa – a sua dignidade e o seu potencial produtivo – então devemos empoderar as mulheres e as meninas, e garantir-lhes as condições para que possam ampliar as suas escolhas e geri-las de forma significativa. Para tal, é fundamental empoderá-las economicamente. Isto proporciona uma plataforma de independência e permite às mulheres exercer escolhas que, de outra forma, não poderiam fazê-lo. De igual modo, dá-lhes a possibilidade de ocupar posições de liderança e expandir a sua esfera de influência. Isto também é importante para a transformação e a melhoria da sociedade, em todo o lado. Permite que as perspetivas dos homens e das mulheres sejam plenamente representadas e, conforme os estudos têm demonstrado repetidamente, isso leva a melhores resultados para mulheres, homens e, na verdade, para todos.

Por isso, se tivesse que escolher, diria que dois pilares fundamentais do trabalho para a igualdade de género incluem o imperativo de eliminar todas as formas de violência contra as mulheres e meninas – para assegurar que o seu potencial e a sua humanidade não são colocados em risco – e o empoderamento económico das mulheres, que possibilita esse mesmo potencial e humanidade para então poderem expressar-se, realizar-se, serem valorizadas e recompensadas de forma plena. Permite ainda um paradigma mais justo – uma marca distintiva de valor. É uma proposta de valor que todos os organismos e todas as sociedades devem esforçar-se por alcançar. É vantajosa para todos.

 

Pode dizer-nos quais as principais metas dos ODS relacionadas com a igualdade de género e o empoderamento das mulheres?

A Agenda 2030 é composta por 17 objetivos e está fortemente imbuída de perspetivas de género. O Objetivo 5 é, em si mesmo, um objetivo que aborda exclusivamente questões transversais relacionadas com a igualdade de género e o empoderamento das mulheres – essencialmente, exorta o mundo, as sociedades e as instituições a eliminarem a violência contra as mulheres, a assegurarem a igualdade das mulheres na tomada de decisão e a empoderarem economicamente as mulheres. Além disso, e igualmente importante, 11 dos 17 ODS contêm dimensões de igualdade de género nos seus objetivos, indicadores e metas. No fundo, o que temos hoje é um modelo para o futuro e este é, até à data, o modelo mais sensível às questões de género.

 

Na sequência das suas conversas com o nosso Diretor e os Serviços de Recursos Humanos, tem alguma sugestão sobre o papel do Centro na promoção dos ODS e das questões de género em termos de desenvolvimento de capacidades?

O CIF-OIT tem um mandato prodigioso, especialmente na sua ligação à OIT e ao mundo do trabalho digno, o qual, como pode imaginar, deve ter uma componente muito forte de igualdade de género e empoderamento das mulheres. O Centro, enquanto pólo de conhecimento que atrai pessoas de dentro e de fora do sistema, funciona como uma plataforma eficaz para gerar e disseminar conhecimentos e sensibilizar para as políticas e práticas diretamente relacionadas com a igualdade de género e o empoderamento das mulheres em todo o mundo. Isto também implica, no entanto, que o CIF-OIT melhore e expanda os seus próprios conhecimentos técnicos nesta área tão importante. Esperamos, assim, que o CIF-OIT consiga reforçar e intensificar os recursos dedicados aos conhecimentos técnicos sobre igualdade de género. Para conseguir alcançar o seu enorme potencial e capitalizar a sua posição e abrangência, é absolutamente fundamental para o CIF-OIT possuir um mínimo de conhecimentos técnicos sobre igualdade de género e empoderamento das mulheres e meninas.

Sinceramente, não é de todo possível implementar os ODS e alcançar um mundo onde ninguém é deixado para trás – o objetivo explícito da Agenda 2030 – sem incorporar plenamente as mulheres nesse processo e em todo o lado, e sem tornar a igualdade de género e o empoderamento das mulheres um foco central de qualquer trabalho em que nos envolvamos.

 

Como encara o futuro, ou seja, tem uma visão positiva do progresso das mulheres?

Estou convencida de que não há outra opção a não ser ter esperança. A esperança é o fundamento do progresso; se perdermos a esperança, eliminamos as sementes do progresso. Por isso sim, tenho uma visão muito esperançosa do futuro. Sim, todos nós precisamos de fazer mais pois ainda há tanto para fazer. No entanto, é igualmente verdade que temos feito mais do que nunca – enquanto sistema das Nações Unidas e como entidade mandatada para apoiar a concretização da igualdade de género em todo o lado e sempre.

Sinto, por exemplo, que o facto de termos negociado e acordado um modelo tão abrangente, ambicioso e visionário como a Agenda 2030 constitui, em si mesmo, uma afirmação que sustenta este tipo de esperança. É um imperativo tanto político como moral, e a igualdade de género ocupa uma posição central nisso. O mundo está tão cheio de problemas, vivemos tempos muito difíceis. Ainda assim, não só acredito na esperança, como também acredito que incorporar e integrar a igualdade das mulheres em todos os níveis e em todo o lado oferece ao mundo a sua melhor esperança. É uma questão de dar uma oportunidade ao paradigma da verdadeira igualdade.

 

 

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